Criativa idade

Ana Clara de Oliveira - 24/09/2013 (Ex-aluna/Estudante UFOP)

A Escola de Teresa

Era oito de maio de 1989 e o casarão número 359 da Rua Paraíba, em Poços de Caldas (MG), agora todo em azul e amarelo dava vida e cores a um sonho enfim concretizado. O quintal com jabuticabeiras da velha casa parecia ter esperado por muitos anos pela criançada que agora corria por todo lado. N porta de entrada, a placa: Criativa Idade, um espaço de criação e convivência para todas as idades. Uma escola. Ou melhor, a escola. Teresa, aos 38 anos, conseguira. Tornara realidade o sonho de tantos anos, depois de remar muito contra a maré. Baseada na filosofia de Paulo Freire e em teorias socioconstrutivistas, a Criativa se ergueu, de mansinho, em meio a muito esforço e dificuldade. Com filhos de amigos, vizinhos e a filha da própria Teresa, o projeto inovador consolidou-se: uma escola “onde se aprende e se ensina com alegria” (Paulo Freire).

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Muitos anos atrás, mais precisamente em oito de abril de 1951, no número 560 da Rua Rio de Janeiro, em Poços de Caldas, nascia Maria Teresa Mesquita de Paula, a terceira filha do casal Leonardo e Rosita, os primeiros moradores da Praça São Benedito, onde Teresa nasceu, cresceu e viveu até se casar. O pai era artista, carioca e dono de uma das mais famosas lojas de doces da cidade. A mãe, argentina de origem libanesa, “leitora, sensível, amorosa, ‘desdobrável’ e politizada”. Ambos tuberculosos. Se conheceram em Campos do Jordão e em 1943, se casaram. Sonhavam ter filhos médicos mas, por graça do destino, todos se tornaram professores: Rosa Maria, Maria Cristina, Oscar e Maria Teresa. Os quatro irmãos, quando jovens, foram militantes nos tempos da Ditadura e os encontros escondidos na casa eram rotina. Discutiam Marx, liam Paulo Freire e rezavam o terço. Época em que Teresa vivenciou a diversidade cultural, política e religiosa e aprendeu a “ser gente”.

O ano era 1969, quando Teresa, aos 18 anos, descobria o gosto em educar. No último ano de seu Magistério no Colégio São Domingos, participou de um projeto de alfabetização de adultos baseada na pedagogia de Paulo Freire, no bairro São José, periferia de Poços de Caldas. “Escondia-se a militância política dos olhos dos ditadores nas ações da pedagogia da libertação”. E foi ali, em meio às filosofias e descobertas que Maria Teresa Mesquita de Paula se apaixonou pela prática educativa.

Entre os anos de 1970 e 1974, cursou Filosofia na Autarquia Municipal de Ensino de Poços de Caldas. Durante vinte e dois anos, foi professora do Colégio São Domingos e da Escola Dom Bosco: “Foi onde aprendi a ‘ler o mundo’ e trazê-lo para as práticas pedagógicas que vivenciava. Experiência de vida!”. Na década de oitenta, Teresa aceitou novos desafios e após trabalhar na Secretaria de Saúde e Promoção Social, passou a trilhar os caminhos da rede pública de ensino. No cargo de Coordenadora da área de bem estar social, passou a administrar as 16 creches do município, “experiência única e marcante na minha história pessoal, profissional e de vida”. Um trabalho apaixonante e uma oportunidade de inovar e recriar a prática educativa. Teresa provocou mudanças no sistema. Passou a criar novas reflexões acerca de educação, diálogo, democratização e cidadania, através de reuniões coletivas com todos os trabalhadores das instituições e de eleições diretas para coordenadora. No entanto, com o tempo foi ficando cada vez mais evidente que as mudanças políticas e diferenças ideológicas não deixavam mais lugar para as crenças, valores e projetos de educação de Teresa.

Foi então que ela decidiu seguir a “ordem” do marido: “arrume uma casa e realize seu sonho!”. Angelino de Paula Filho (mais conhecido por Sobrinho), com quem viveu por 38 anos, foi o primeiro a acreditar no seu sonho e, mais tarde, deixaria se emprego de representante comercial para auxiliá-la na administração financeira da escola até o ano de 2007, quando faleceu. Teresa estava decidida a dar um lugar a sua ideologia, ela precisava de uma escola que, como na filosofia “freireana”, acreditava em uma educação libertadora através da dialética, em que o aluno cria sua própria educação e trilha seu próprio caminho. A dificuldade principal era o diferente e o inovador em conflito com uma Poços de Caldas conservadora e com tantas escolas tradicionais bem conceituadas. Mas, Teresa é uma mulher apaixonada por educação e que sempre acreditou que os sonhos são pequenas realizações do dia-a-dia. Com o apoio amoroso e financeiro de Sobrinho, ela lutou e venceu. Assim, voltamos ao início desse texto. O casarão com jabuticabeiras que iniciou com atividades extraescolares e uma no depois se concretizou como uma comunidade escolar diferenciada. A escola de Teresa.

Em pouco tempo, a escola cresceu e o espaço ficou pequeno. Com seus 64 alunos, Criativa Idade se mudava para a Rua Doutor Mário Mourão, número 64. No entanto, com o passar do tempo, houve necessidade de mais uma mudança. Um imenso casarão antigo, com área verde por todo lado, bem no centro da cidade, na Rua Dr. Francisco Faria Lobato, número 152, Criativa Idade criou ali suas raízes. O ano era 1996, mais ou menos a época em que eu entro na história.

Há quase dez anos não entro por aqueles portões amarelos. Porém, como se fosse ontem, me lembro de cada cor, cada risada cada cheiro. Da Neusa cozinheira, à Maria da portaria. Minha infância, naquela escola, se tornou mais rica. Não houvesse grandes tecnologias. A grandeza estava na simplicidade. A cada Festa de Família, a cada música, a cada dança, a cada receita que descobria, me encantava mais por aquele lugar. O tempo passou. O pátio azul, ouvi dizer, que pintaram de vermelho. Muros que não existiam se ergueram. No entanto, a essência permanece. O sonho de Teresa se fez realidade e é essa paixão que é passada a cada aluno que pisa no chão azul da escola.

Hoje, mais de vinte anos depois, a escola conquistou credibilidade e possui 182 alunos em turmas de um ano e meio até catorze anos (9º ano do ensino fundamental II), com uma identidade consolidada e construída da educação Criativa Idade. “Educar causa-me emoções diárias, alimenta minhas convicções, princípios, certezas. Tenho a escola para compartilhar conhecimento, exercer cidadania e ser gente”. “Que as pessoas tenham oportunidade de pensar, escolher, criticar, exercitar cidadania, tolerar, trocar saberes e conhecimento, compartilhar, sensibilizar-se, dialogar com o novo e diverso, construindo uma educação transformadora e libertária. Acredito e pratico esta educação, que existe em muitas instituições do país e que alimenta a minha paixão por educar”, palavras de uma Maria Teresa Mesquita de Paula de 62 anos, seis filhos, seis netos e uma escola.

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